Terapia é só para quem tem transtorno psicológico?
- Beatriz Cristina

- 21 de jan.
- 3 min de leitura
“Isso é coisa da sua cabeça.”
“Todo mundo tem um pouco disso.”
“Hoje em dia tudo virou transtorno.”
Essas frases não são apenas opiniões individuais. Elas carregam uma história. Uma história em que o sofrimento precisou ser classificado, nomeado e separado para poder ser reconhecido e, muitas vezes, controlado.
Perguntar se a terapia é “só para quem tem transtorno psicológico” é, no fundo, perguntar quem tem direito ao cuidado e em que condições.
Quando o sofrimento precisa de um nome para existir

Ao longo do tempo, aprendemos que a dor só se torna legítima quando recebe um rótulo. Sem nome, ela parece exagero. Com nome, passa a ser tolerada desde que se comporte dentro do esperado.
Há algo de profundamente político nisso.
Nem todo sofrimento cabe em classificações. Nem toda experiência de angústia, vazio, repetição ou desencaixe se organiza como transtorno. Ainda assim, ela existe, insiste e atravessa corpos, relações e escolhas cotidianas.
A clínica que se orienta apenas por diagnósticos corre o risco de escutar mais as categorias do que as pessoas.
A linha invisível entre o normal e o patológico
Historicamente, a ideia de “normalidade” nunca foi neutra. Ela sempre esteve ligada a modos específicos de viver, trabalhar, amar, produzir, responder ao tempo.
Quem não se ajusta, quem desacelera, quem sofre demais, quem não corresponde passa a ocupar um lugar incômodo. E, muitas vezes, é nesse lugar que surge a pergunta: isso é doença ou fraqueza?
A terapia, quando reduzida a um recurso para “corrigir desvios”, perde sua potência clínica e ética. Torna-se mais um dispositivo de adaptação, em vez de um espaço de escuta.
Sofrimentos que não quebram, mas moldam
Nem todo sofrimento explode. Alguns se acumulam em silêncio, moldando a vida por dentro.
A pessoa segue funcionando. Trabalha, estuda, se relaciona. Mas algo vai se estreitando: as possibilidades, os afetos, o corpo.
É como viver em uma casa onde algumas portas foram sendo fechadas ao longo do tempo. Ainda se mora ali, mas cada vez com menos espaço para circular.
Esses sofrimentos raramente recebem um diagnóstico imediato. E justamente por isso costumam ser desconsiderados.
Terapia não como correção, mas como investigação
Na Gestalt-terapia, o sofrimento não é visto como erro a ser eliminado, mas como uma forma de organização da experiência que fez sentido em determinado contexto e que talvez hoje esteja custando caro demais.
A clínica se torna, então, um espaço de investigação:
como esse modo de estar no mundo se construiu
o que ele protege
o que ele limita
e o que já não precisa mais ser sustentado da mesma forma
Esse trabalho não exige, necessariamente, um transtorno psicológico. Exige disponibilidade para olhar a própria experiência com cuidado e complexidade.
Diagnóstico: ferramenta, não identidade

Isso não significa negar a importância dos diagnósticos. Eles podem ser fundamentais para garantir acesso a cuidado, direitos e recursos.
Mas quando passam a definir quem alguém é (e não apenas o que alguém vive) tornam-se empobrecedores.
Uma clínica ética sustenta a pergunta antes da resposta. Escuta antes de nomear. Reconhece que a vida é sempre mais ampla do que qualquer categoria.
Então, para quem é a terapia?
Talvez a pergunta precise ser deslocada.
Não: “isso é grave o suficiente?"
Mas: “o modo como estou vivendo ainda faz sentido para mim?”
A terapia não é um espaço reservado àqueles que falharam em se adaptar.
É um lugar possível para quem deseja compreender como foi se adaptando e a que custo.
Para refletir
Se o cuidado não dependesse de um rótulo para existir, o que, na sua experiência, pediria escuta hoje?
Beatriz Cristina de Miranda Barbosa
Psicóloga I CRP: 06/182287

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