O que acontece na primeira sessão de terapia?
- Beatriz Cristina

- 21 de jan.
- 3 min de leitura
Há quem imagine a primeira sessão de terapia como um interrogatório. Outros a veem como um momento decisivo, quase um exame: “vou saber tudo sobre mim?”, “vou sair transformado?”, “e se eu não souber o que dizer?”
Na prática, a primeira sessão costuma se parecer muito menos com uma resposta e muito mais com um começo. Como quando entramos pela primeira vez em uma casa desconhecida: ainda não sabemos onde sentar, onde apoiar o corpo, nem se aquele espaço nos cabe. É preciso algum tempo para sentir.

A primeira sessão começa, muitas vezes, no silêncio que ainda não sabe o que dizer.
A primeira sessão não é um teste
Não existe desempenho esperado. Não é preciso chegar com uma história bem organizada, com uma queixa clara ou com palavras certas.
Muitas pessoas chegam dizendo:“Eu nem sei por onde começar.”E isso, por si só, já é um começo.
Na primeira sessão, o que acontece não é a busca por explicações rápidas, mas a construção de um espaço de escuta. Um espaço onde o ritmo pode diminuir um pouco, como quando desligamos o motor do carro depois de um dia longo e ficamos alguns segundos em silêncio antes de sair.
O que o terapeuta observa (além do que é dito)
Na Gestalt-terapia, a atenção não está apenas no conteúdo da fala, mas na forma como a experiência se apresenta.
O corpo que se movimenta ou se recolhe. As pausas. O tom de voz.Aquilo que aparece como urgência e aquilo que ainda não encontra linguagem.
Às vezes, o sofrimento não chega como narrativa, mas como cansaço, repetição, irritação sem nome, sensação de estar sempre “apagando incêndios”. A clínica começa justamente aí: onde a vida está pedindo outra forma de presença.
Não se trata de diagnóstico imediato
Uma dúvida comum é: “Na primeira sessão já vou receber um diagnóstico?”
Em uma clínica comprometida com a complexidade da experiência humana, a resposta tende a ser não.
Diagnosticar exige tempo, cuidado e responsabilidade. Reduzir uma história inteira a um rótulo apressado costuma dizer mais sobre a pressa do mundo do que sobre a pessoa que sofre.
A primeira sessão não serve para encaixar alguém em categorias, mas para escutar como o sofrimento se organiza naquele momento da vida, naquele corpo, naquela história
Um encontro antes de um método
Antes de qualquer técnica, há um encontro. Antes de qualquer teoria, há alguém que chega e alguém que escuta.
A primeira sessão é, muitas vezes, o momento de verificar se aquele espaço pode ser sustentado: se a fala encontra acolhimento,se o silêncio não é invasivo, se há possibilidade de confiança.
Como sentar à mesa com alguém pela primeira vez e perceber, pouco a pouco, se dá para continuar a conversa.
O que pode emergir depois da primeira sessão
Algumas pessoas saem mais aliviadas.
Outras saem pensativas.

Mas pode clarear um pouco o dia.
Há quem sinta cansaço. Há quem sinta estranhamento.
Tudo isso faz parte.
A primeira sessão não precisa ser esclarecedora, produtiva ou “boa” no sentido comum. Ela precisa ser verdadeira. E, às vezes, a verdade do momento é apenas perceber que algo foi finalmente dito em voz alta.
Primeira sessão de terapia: um gesto de cuidado
Procurar terapia não é sinal de fraqueza. É, muitas vezes, um gesto simples e radical: reconhecer que algo não precisa ser sustentado sozinho.
A primeira sessão não resolve a vida. Mas pode inaugurar um espaço onde a vida passa a ser olhada com mais atenção, menos violência e mais possibilidade de escolha
Para refletir
A primeira sessão não pergunta “qual é o seu problema?”,mas talvez sussurre algo mais delicado: o que, em você, está pedindo escuta agora?
Beatriz Cristina de Miranda Barbosa
Psicóloga I CRP: 06/182287


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