Minha vida está dando certo. Então por que me sinto vazio?
- Beatriz Cristina

- há 20 horas
- 4 min de leitura
Quando nada parece faltar, mas algo continua ausente
Há uma pergunta que costuma chegar ao consultório acompanhada de culpa.
Às vezes ela é dita em voz alta.
Às vezes aparece apenas nas entrelinhas.
Mas costuma soar mais ou menos assim:
"Eu não deveria estar me sentindo assim."
A pessoa olha para a própria vida e encontra razões para agradecer.
Tem trabalho.
Tem estudos.
Tem pessoas importantes ao redor.
Tem projetos.
Tem planos.
Talvez tenha conquistado coisas pelas quais lutou durante anos.
E ainda assim...
Existe um incômodo difícil de explicar.
Como se algo estivesse fora do lugar.
Não necessariamente uma tristeza.
Não necessariamente uma crise.
Talvez uma sensação mais silenciosa.
Um vazio.
Uma distância.
Uma impressão de estar vivendo sem conseguir realmente habitar a própria vida.
E então surge a culpa.
Porque, se aparentemente está tudo bem, por que essa sensação continua ali?
Quando o sofrimento não tem uma causa óbvia

Vivemos em uma cultura que costuma associar sofrimento a acontecimentos visíveis.
Perdas.
Términos.
Doenças.
Crises.
Como se só tivéssemos autorização para sofrer quando algo claramente deu errado.
Mas a experiência humana nem sempre funciona dessa forma.
Às vezes o sofrimento não nasce da falta.
Nasce do desencontro.
Entre aquilo que vivemos e aquilo que faz sentido para nós.
Entre a vida que construímos e a vida que realmente habitamos.
Entre o que aprendemos a desejar e aquilo que, de fato, nos toca.
Um pequeno experimento
Pense nos últimos meses.
Quantas das suas decisões foram tomadas porque você realmente desejava algo?
E quantas foram tomadas porque pareciam o próximo passo lógico?
Porque era esperado?
Porque fazia sentido?
Porque era o certo a fazer?
Não há nada de errado nisso.
Mas, às vezes, passamos tanto tempo respondendo às demandas da vida que deixamos de perceber o que acontece dentro de nós enquanto respondemos.
A vida pode funcionar sem necessariamente fazer sentido

O psiquiatra e neurologista Viktor Frankl observava que muitas pessoas não sofriam apenas pela presença da dor.
Sofriam pela ausência de sentido.
Isso não significa que exista um propósito grandioso esperando ser descoberto.
Mas significa que os seres humanos não vivem apenas de metas cumpridas.
Precisamos também sentir que participamos da própria existência.
Que aquilo que fazemos conversa com algo que reconhecemos como nosso.
Quando essa conexão enfraquece, uma sensação estranha pode surgir:
A vida continua acontecendo.
Mas a experiência de estar nela começa a ficar distante.
O que a Gestalt-terapia observa nesse processo
Na Gestalt-terapia, entendemos que a vida acontece através do contato.
Contato com o mundo.
Contato com os outros.
Contato consigo mesmo.
Mas nem sempre percebemos quando esse contato vai se tornando mais frágil.
Continuamos trabalhando.
Continuamos cumprindo responsabilidades.
Continuamos funcionando.
Por fora, pouca coisa muda.
Mas por dentro, algo começa a perder cor.
Os dias passam.
As tarefas são realizadas.
As conversas acontecem.
E ainda assim surge uma pergunta difícil de responder:
"Por que nada disso parece me alcançar de verdade?"
Talvez o vazio não seja o problema
Talvez essa seja uma das ideias mais importantes deste texto.
Na maioria das vezes, queremos nos livrar do vazio o mais rápido possível.
Preencher.
Distrair.
Produzir.
Consumir.
Planejar.
Resolver.
Mas e se o vazio não fosse apenas uma ausência?
E se ele também fosse um sinal?
Na Gestalt-terapia, muitas vezes olhamos para aquilo que incomoda não apenas como um problema, mas como uma experiência que está tentando dizer algo.
Talvez o vazio seja uma pergunta.
Talvez seja um convite.
Talvez seja a percepção de que algo importante ficou para trás enquanto você cuidava de tantas outras coisas.
O que tem recebido sua atenção?
Existe uma diferença entre viver uma vida preenchida e viver uma vida significativa.
Uma agenda cheia não é necessariamente uma vida cheia.
Da mesma forma que uma rotina organizada não garante presença.
Talvez a questão não seja:
"O que está faltando na minha vida?"
Mas:
"O que, dentro de mim, deixou de encontrar espaço?"
Essa pergunta costuma ser mais difícil.
Porque ela não aponta para algo que possa ser comprado, conquistado ou resolvido rapidamente.
Ela aponta para uma relação.
Uma relação consigo mesmo.
Quando a vida pede uma pausa para ser escutada
Nem todo vazio é um sintoma.
Nem toda insatisfação é ingratidão.
Nem todo desconforto é sinal de que algo está errado.
Às vezes, essas experiências aparecem justamente quando uma parte de nós começa a pedir mais participação na própria vida.
Mais presença.
Mais verdade.
Mais sentido.
E talvez a terapia seja justamente um lugar para isso.
Não para encontrar respostas prontas.
Mas para criar condições para que perguntas importantes possam ser escutadas.
Com cuidado.
Sem pressa.
Sem a necessidade imediata de resolvê-las.
Um convite
Antes de seguir para a próxima tarefa do seu dia, experimente parar por um instante.
Pergunte a si mesmo:
O que tem ocupado meu tempo?
O que tem ocupado meus pensamentos?
E o que, silenciosamente, tem ficado de fora?
Talvez você não encontre respostas agora.
Mas, às vezes, o início de uma mudança não acontece quando encontramos uma solução.
Acontece quando finalmente conseguimos escutar uma pergunta.
Referências
Viktor Frankl — Em Busca de Sentido
Fritz Perls, Ralph Hefferline e Paul Goodman — Gestalt Therapy
Maurice Merleau-Ponty — Fenomenologia da Percepção
Irvin Yalom — Psicoterapia Existencial
Quando aquilo que você sente já não cabe apenas em pensamentos, a terapia pode ser um espaço para olhar com mais cuidado para essas perguntas.
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Beatriz Cristina de Miranda Barbosa
Psicóloga I CRP: 06/182287


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