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Cansaço emocional: quando a vida vira uma lista de tarefas

Pessoa sentada diante de uma janela observando o mar em silêncio, em um momento de reflexão e contemplação.

Uma reflexão sobre cansaço, produtividade e os modos como aprendemos a medir nosso próprio valor.


Existe um tipo de cansaço emocional que não desaparece depois de uma noite de sono.

É um cansaço que acompanha a pessoa até nos momentos em que ela finalmente para.

Ela senta no sofá, mas a mente continua correndo.

Ela tira férias, mas sente culpa por não estar fazendo algo “útil”.

Ela termina uma tarefa e, antes mesmo de sentir satisfação, já pensa na próxima.

Como se houvesse uma voz interna dizendo:

“Você poderia estar fazendo mais.”

Talvez você conheça essa voz.

Ela não grita.

Ela apenas acompanha.

Está presente quando você descansa.Quando você se compara.Quando sente que está atrasado em relação à própria vida.

E, aos poucos, algo curioso acontece:

O descanso, que deveria ser uma necessidade humana, começa a parecer um privilégio que precisa ser merecido.


Quando o cansaço deixa de ser apenas seu


Mulher com expressão de exaustão diante de um computador durante uma rotina de trabalho

Muitas pessoas chegam à terapia dizendo:

“Eu não entendo por que estou tão cansado.”

“Minha vida nem está tão ruim assim.”

“Eu deveria dar conta.”

Essa última frase aparece com frequência.

Eu deveria dar conta.

Mas dar conta de quê?

E segundo qual medida?


A psicologia crítica nos convida a fazer uma pergunta anterior:

Esse sofrimento nasceu apenas dentro de você ou existe um mundo participando dele?

Essa pergunta é importante porque vivemos em uma cultura que frequentemente transforma problemas coletivos em falhas individuais.

Se você está cansado, talvez precise “se organizar melhor”.

Se está ansioso, talvez precise “controlar melhor seus pensamentos”.

Se está esgotado, talvez precise “desenvolver mais resiliência”.

Mas e se, antes de tentar consertar a pessoa, precisássemos olhar para o contexto em que ela está tentando existir?


A sociedade do desempenho


O filósofo sul-coreano-alemão Byung-Chul Han descreve a sociedade contemporânea como uma sociedade do desempenho.

Segundo ele, deixamos de viver apenas sob uma lógica de obrigação externa:

“Você deve fazer.”

E passamos para uma lógica ainda mais profunda:

“Você pode fazer.”

A princípio, isso parece liberdade.

Mas existe uma armadilha.

Quando tudo parece possível, também parece que tudo depende exclusivamente de nós.

Se não conseguimos, a culpa retorna para o indivíduo.

Não somos mais apenas cobrados por alguém.

Aprendemos a nos cobrar.

O controle deixa de estar apenas fora e passa a morar dentro.

A pessoa se torna, ao mesmo tempo, trabalhadora e fiscal de si mesma.


Quando produzir vira uma forma de existir


Talvez a pergunta mais difícil não seja:

“Por que eu estou cansado?”

Talvez seja:

“Quem sou eu quando não estou fazendo algo?”

Essa pergunta pode causar estranhamento.

Porque muitas pessoas aprenderam, desde cedo, a construir sua identidade através do desempenho:

Sou bom porque entrego. Sou importante porque ajudo. Sou valorizado porque sou necessário.

Então, quando param… surge um vazio.

Não necessariamente porque não existe nada ali.

Mas porque talvez nunca tenham aprendido a escutar esse espaço.


🌿 Para refletir

Quando foi a última vez que você fez algo que não tinha utilidade, produtividade ou objetivo?
O que acontece dentro de você quando não há nada para cumprir?

A Gestalt-terapia e o corpo que pede pausa


Na Gestalt-terapia, não olhamos o sintoma apenas como algo a ser eliminado.

O sintoma também comunica.

Ele é uma forma que a experiência encontra para aparecer.

O cansaço pode ser uma mensagem.

Não uma mensagem simples como:

“Pare tudo.”


Mas talvez:

“Olhe para a forma como você está vivendo.”

A pergunta gestáltica não é apenas:

“Como acabar com esse cansaço?”

Mas:

“O que esse cansaço revela sobre a maneira como você está em contato com sua própria vida?”


O corpo muitas vezes percebe antes da consciência.

Antes de dizer:

“Eu não aguento mais.”

O corpo já disse:

“Estou pesado.”

Antes de dizer:

“Preciso mudar.”

O corpo já mostrou:

“Não consigo continuar desse jeito.”


Descansar também é uma forma de contato


Cadeira solitária em meio à água calma, simbolizando pausa, presença e contemplação.

Em uma cultura que valoriza velocidade, parar pode parecer perda.

Mas parar também pode ser presença.

É no espaço entre uma coisa e outra que percebemos:

  • o que sentimos;

  • o que desejamos;

  • o que estamos evitando;

  • o que realmente importa.

A pausa não é ausência de movimento.

Às vezes, a pausa é o lugar onde um novo movimento começa.


Responsabilidade sem culpa


Falar sobre contexto não significa dizer que não temos participação na própria história.

A psicologia crítica não propõe trocar:

“Tudo é culpa minha”

por

“Tudo é culpa do mundo.”

A questão é mais complexa.

Somos construídos pelas relações, pela cultura, pelas condições em que vivemos.

Mas também podemos criar novas formas de responder a elas.

Na Gestalt-terapia, isso aparece através da ideia de ajustamento criativo.

O ser humano cria maneiras de sobreviver, se adaptar e encontrar caminhos possíveis.

Mas aquilo que um dia foi uma solução pode, com o tempo, deixar de fazer sentido.

A pergunta então muda:

Não é:

“Por que eu sou assim?”

Mas:

“Essa forma que encontrei de viver ainda serve para quem estou me tornando?


Um pequeno experimento


Antes de continuar o seu dia, experimente responder:

Sem pensar muito:

O que você faz quando está cansado?

Você descansa?

Ou procura uma nova tarefa?

Você se escuta?

Ou tenta se distrair?

Você permite existir?

Ou sente que precisa justificar sua existência?

Talvez o caminho não seja aprender a produzir mais.

Talvez seja reaprender a estar.

Porque você não é uma máquina que precisa de manutenção.

Você é uma pessoa em relação com um mundo.

E talvez a terapia seja justamente esse espaço:

um lugar onde, por alguns instantes, você não precisa provar nada.

Apenas existir.


Referências que sustentam esta reflexão

  • HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço.

  • DEJOURS, Christophe. A Loucura do Trabalho.

  • PERLS, Fritz; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality.

  • MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção.

  • PARKER, Ian. Critical Psychology: Critical Links.


Gostou desta reflexão?

Se este texto dialogou com algo que você tem vivido, talvez seja um convite para olhar com mais cuidado para a forma como você tem atravessado seus dias.




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Beatriz Cristina de Miranda Barbosa

Psicóloga I CRP: 06/182287

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